A Queda do Tailwind e o Fim da Arbitragem de Conhecimento
Os números são assustadores e a história correu a internet esta semana. O Tailwind CSS demitiu 75% da sua equipe de engenharia após uma queda de 80% na receita. A causa oficial, vinda do próprio criador Adam Wathan, é a Inteligência Artificial.
Aparentemente o modelo de negócios do Tailwind dependia de um funil muito específico que a IA destruiu completamente. Funcionava assim: nós esquecíamos como centralizar uma div ou qual era a classe para uma sombra específica, entrávamos na documentação para pesquisar e, enquanto estávamos lá, éramos expostos aos anúncios do Tailwind UI. Era uma simbiose baseada na nossa falha de memória.
Mas agora ninguém mais entra na documentação. Nós apenas pedimos ao ChatGPT ou ao Claude para “fazer um botão azul com bordas arredondadas” e eles nos dão o código pronto. O tráfego sumiu e o dinheiro secou.
Isso evidencia um problema estrutural que sempre existiu no open source, mas que a IA está acelerando brutalmente: a dificuldade de monetizar algo que é gratuito. Durante anos, construímos uma economia baseada na fricção. O Stack Overflow perdeu quase 80% do tráfego de perguntas porque a IA resolveu o problema da dúvida simples. O Tailwind vivia da nossa preguiça de memorizar classes. Eram modelos de negócios baseados na arbitragem de conhecimento, lucrando sobre o que o usuário não sabia fazer sozinho.
A IA matou essa arbitragem. Hoje ela resolve problemas que antes exigiam pesquisa, leitura e navegação. Se o serviço depende de eu não saber fazer algo, ele está com os dias contados.
A reação do Adam Wathan a isso foi reveladora. Recentemente ele rejeitou uma contribuição que adicionaria um arquivo llms.txt ao projeto (PR #2388), um padrão que ajudaria as IAs a lerem melhor a documentação do Tailwind. No comentário de fechamento da PR, ele foi brutalmente honesto:
“The reality is that 75% of the people on our engineering team lost their jobs here yesterday because of the brutal impact AI has had on our business… Tailwind is growing faster than it ever has and is bigger than it ever has been, and our revenue is down close to 80%.”
O argumento foi de que ajudar a IA seria suicídio financeiro. É uma postura defensiva compreensível, mas cria um incentivo perigoso. Tentar esconder a documentação ou dificultar o acesso dos modelos não vai funcionar a longo prazo — hoje as IAs já navegam na web e leem documentações em tempo real — mas a tentativa em si é preocupante. Ver uma ferramenta tão onipresente quanto o Tailwind adotando uma postura de “guerra à IA” para salvar o faturamento é, no mínimo, bizarro.
Não vejo isso como o fim do mundo, mas sim como uma nova Revolução Industrial. Estamos naquele momento exato onde o trabalho repetitivo está sendo engolido pela máquina. Quem não se adaptar será engolido junto.
Acredito que estamos caminhando para um cenário onde escrever código na mão vai virar algo “artesanal”. Assim como a revolução industrial não acabou com os tecelões, mas transformou a tecelagem manual em arte de luxo, programar sem auxílio vai mudar de figura. A IA veio para ficar. Ela ainda não é perfeita e comete erros bobos, mas ignorar sua evolução é fechar os olhos para a realidade. O paradigma mudou e lutar contra a eficiência da ferramenta para salvar um modelo de negócios antigo é uma batalha perdida.