Software pra uma pessoa só, e quem vai fazer o seeding

A gente está entrando na era do software pra uma pessoa só. Código ficou barato, e qualquer um consegue pedir pra um agente exatamente o programa que precisa. O que vai valer dinheiro são os dados e o jeito como eles são organizados e distribuídos, bem mais que o software. E isso traz um problema que eu ainda não vi muita gente comentar.

O DHH disse isso do jeito dele:

No mesmo dia ele trocou o OBS por um app próprio no Omarchy, porque só usava o OBS pra gravar monólogo. E completou: “All single-user desktop software moats are gone.”

Software pra um não precisa de nada do que a gente aprendeu

Software pra uma pessoa não precisa escalar. Não precisa de login, de multi-tenant, de feature flag, de onboarding, de tela de configuração pra caso de uso que você nunca vai ter. Metade da complexidade que a gente carrega existe porque o software precisa servir milhões de pessoas diferentes. Sem os milhões, sobra pouca coisa.

O Robin Sloan escreveu isso em 2020, bem antes de agente existir, no texto “An app can be a home-cooked meal”. Ele fez um app de mensagem só pra família dele, quatro usuários, zero churn. Não tinha login porque o app já sabia quem usava. Ele diz que, quando você livra a programação da obrigação de ser profissional e escalável, ela vira outra atividade, do mesmo jeito que cozinhar em casa é diferente de cozinhar num restaurante. Ele levou uma semana, metade brigando com assinatura de código da Apple. Com agente, hoje dá pra fazer numa tarde.

Isso conversa com o que eu já escrevi sobre a arbitragem de conhecimento. Se o código não vale mais, o que vale é o que não dá pra gerar com um prompt: os dados. O seu histórico, a base de filmes, o catálogo de produto, as respostas que um monte de gente escreveu ao longo de anos.

O paradoxo: os dados vêm do software que todo mundo usa

Só que esses dados nascem justamente de software compartilhado, usado por muita gente ao mesmo tempo. O Stack Overflow só tinha resposta porque milhões de pessoas usavam o mesmo site. Um app de mapa só sabe do trânsito porque todo mundo está com ele aberto.

Se cada um tiver o seu software, quem gera os dados que o software de todo mundo consome? O software pra um consome dados e quase nunca produz nada pros outros.

E quem vende o software compartilhado?

Me incomoda ainda mais o lado de quem vende: empreender em software fica cada vez mais difícil justamente por causa dessa era.

Se qualquer pessoa pode fazer qualquer coisa digital pedindo pro agente, por que ela vai assinar o meu software? Pra valer a pena, ele teria que ser muito barato, barato a ponto de não compensar ter um 100% seu, do seu jeito, que você muda quando quiser. Ou teria que ser customizável num nível absurdo. Completamente flexível e, ao mesmo tempo, escalável pra milhões de pessoas. Essas duas coisas juntas são das mais difíceis de fazer em software. Flexibilidade cobra caro em complexidade, e escala cobra caro em padronização.

Piora quando o produto tem IA dentro, coisa que hoje quase todo software novo meio que precisa ter. Aí quem vende paga preço de API, que é bem mais caro que assinatura. O Theo calcula que uma assinatura de US$ 200 do Claude Code rende uns US$ 9 mil de uso por mês pelo preço da API, e ele mesmo chama o preço da API de “insane”. Então o meu produto precisa valer mais pro cliente do que um plano de US$ 20 com o qual ele constrói o software dele e ainda usa pra mil outras coisas. Eu pago tabela em cada chamada de IA do produto, ele paga a assinatura com desconto. Não tem como competir nessa conta.

Isso volta pro problema dos dados. O software compartilhado é o que produz os dados que todo mundo consome. Se ele fica mais difícil de vender, menos gente consegue manter um de pé, e sobra menos lugar onde os dados nascem.

Pra quem empreende no Brasil é um aperto dos dois lados. De um lado, o custo do modelo de ponta, que pesa em real. Do outro, um mercado de software pago encolhendo, porque o seu cliente agora pode fazer a versão dele numa tarde.

O Stremio e o torrent

O melhor exemplo que eu conheço disso é o Stremio. Ele facilitou absurdamente o torrent. Muita gente que nunca abriria um cliente de torrent hoje assiste filme e série por ele, porque instala um addon, clica e o vídeo começa.

O problema é que o Stremio não quer ser cliente de torrent. Ele envia pedaço pros outros enquanto você assiste, mas fecha as conexões mais ou menos um minuto depois que você sai do player, segundo a própria ajuda do Stremio citada nessa discussão. Nessa mesma issue, alguém pediu uma opção pra continuar semeando depois, justamente pra acabar com as reclamações de que o Stremio está matando os torrents. A resposta de alguém do time foi curta. Em tradução livre minha: “o Stremio é uma plataforma de streaming, não um cliente de torrent, e isso não vai ser adicionado por vários motivos.”

Um comentário na issue pergunta o óbvio, também em tradução livre: “a função principal dele é consumir torrent, por que não melhorar a sua própria fonte de conteúdo?”

Aí entra o debrid. Quem usa Stremio direito acaba indo pra serviço de debrid, tipo Real-Debrid, que baixa o torrent no servidor deles e te entrega por HTTPS. No r/StremioAddons a recomendação pra quem não quer semear nada é exatamente essa. Num outro post, alguém pergunta o que fazer quando o filme tem 2 ou 5 seeders, e a resposta é que com debrid “Seeders are irrelevant as titles are cached”. Pra quem assiste faz sentido, mas cada usuário que sai do enxame e vai pro cache de um serviço pago é um par a menos pra todo o resto. Com o tempo, achar torrent saudável de coisa antiga fica mais difícil, inclusive dentro do Stremio.

É a tragédia dos comuns aplicada a filme e série: o Stremio vive de um recurso coletivo que ele mesmo ensina milhões de pessoas a consumir sem devolver.

O software pra um vai ser um leecher

O software pessoal tem tudo pra virar o Stremio dos dados. Ele é ótimo pra quem usa, puxa da API, do dataset aberto, do fórum e do repositório público, e não devolve nada, até porque ninguém mais usa aquele software.

Eu não acho que isso pare a era do software pra um. Vai acontecer, eu mesmo já faço isso. Mas a pergunta passa a ser quem faz o seeding, quem mantém os dados compartilhados vivos quando ninguém mais usa o mesmo programa.

Meu chute é que quem vai segurar os dados é quem já tem os dados: as empresas que ainda rodam software pra milhões e agora vendem acesso a isso. Igual o debrid. Você para de semear, e passa a pagar alguém que tem o cache.

Isso é uma previsão minha desde 2024: no futuro só vão sobrar data brokers e empresas de IA. Vai parecer o que aconteceu com rede social. Quando alguém fala rede social, fala basicamente de três: Twitter, Facebook e Instagram. Acho que software em geral vai ficar parecido. Um a três softwares que fazem tudo o que um programa específico fazia antes, com sabores diferentes, e você sempre volta pra eles. O software compartilhado de nicho some, e o específico também, porque a IA faz tudo.

E o software pra um cabe dentro dessa previsão. Ele vai rodar dentro desses um a três, como um sabor. Você monta o app do seu jeito, em cima do modelo e dos dados de alguém, e quem fica com o dinheiro é esse alguém.