Código na mão acabou. Pra quem pode pagar
O DHH tem razão. Escrever código à mão deixou de ser o normal, e a linguagem que importa agora é a natural. Eu não tenho autoridade nenhuma pra discordar disso, porque faz meses que eu não escrevo um arquivo inteiro na mão.
Na keynote da Rails World ele disse que a 37signals está “pencils down” e que código escrito à mão virou “an exceptional state”. Se o agente erra, você conserta o agente e deixa o lápis na gaveta. O HEY novo sai com seis apps nativos e backend em Rust, que ele chamou de a linguagem mais feia dos últimos 40 anos e disse que ama, desde que quem escreva seja o agente.
Um ano atrás eu escrevia quase tudo na mão. Eu sempre acompanhei essa tecnologia de perto e tentei tirar o máximo dela, e justamente por conhecer as limitações eu não confiava. Essa leva nova mudou isso. Os 5.5 da Anthropic, o GPT-6.1 Sol e o GPT-6 Astra estão absurdos. Ainda fazem coisa errada, mas na maior parte dos casos eu já confio que eles se viram. Hoje praticamente 100% do meu código passa por IA. Ainda reviso tudo e mando refazer bastante coisa, e não me acho bom nisso. Já escrevi que o artesão virou arquiteto. O DHH só disse a mesma coisa de cima do palco do framework que ele mesmo criou.
O que eu concedo
Os números do HEY em Rust (99% menos CPU, 95% menos memória, o pico inteiro rodando num Raspberry Pi) são do próprio DHH, de um software que ainda não foi lançado, e ele mesmo chamou a conta do Raspberry Pi de “back-of-the-envelope”. As 150 mil linhas que ele diz ter produzido só em agosto também não têm como ser auditadas por ninguém de fora.
Mesmo assim eu não acho que ele esteja inflando o resultado pra vender alguma coisa. Ele contou o fracasso junto: os designers fizeram as últimas features do Basecamp 5 com agente, uns 20 ou 30 PRs deixaram a arquitetura, nas palavras dele, “like a Swiss cheese”, e o Basecamp 5 saiu com bastante código escrito à mão. A conclusão dele foi que recuar dos agentes seria a lição errada, e nisso eu concordo.
E ele não está sozinho. O Guillermo Rauch, da Vercel, que vive de vender JavaScript, escreveu sem rodeio:
DHH is fundamentally right about Rust. For context, Vercel has been undergoing a Rust-ification (carcinization, technically 🦀) for a while.
— Guillermo Rauch (@rauchg) October 4, 2026
Rust ganha pelo motivo que eu já defendi: o compilador vira o policial do agente. Se ninguém precisa achar a sintaxe bonita, ganha a linguagem que pega o erro do modelo antes de ir pra produção.
O Bun é prova, mas só em parte
O Bun saiu de Zig pra Rust com agentes e por volta de US$ 165 mil em tokens. Isso prova que a fábrica de agentes funciona, mas o Bun tinha a Anthropic por trás, uma suíte de testes gigante e acesso a um modelo que o resto do mundo ainda nem podia usar. Dá pra estudar e testar em projeto meu, só não dá pra tratar como receita.
O buraco: a conta
Aqui eu paro de concordar. O DHH fala de um lugar onde token não pesa no orçamento do mês, e eu moro bem longe dele.
O argumento mais comum agora é que o preço caiu. Em três dias, Claude Sonnet 5.5, GPT-6.1 Sol e Gemini 4 Argon saíram pelo mesmo preço: US$ 2 por milhão de tokens de entrada e US$ 10 de saída. Só que a briga foi pra outro lugar. O Argon ficou restrito a uns 650 profissionais de segurança, e esse preço é introdutório, depois vai pra US$ 4/20. A OpenAI lançou o modo Ultrafast, que custa 6 vezes mais pra ir mais rápido, e um plano Pro de US$ 500 por mês que inclui esse modo. Os agentes sempre ligados dela começam no plano de US$ 100. O preço da tabela empatou, mas a velocidade e o acesso viraram o produto caro.
Eu assino Grok, OpenAI, Google e Claude, todos no plano de US$ 20, e a ideia é ficar com um ou dois. Em real, isso já pesa. Nois é pobre. Eu uso modelo mais fraco e mais barato, e isso tem um custo que não aparece na fatura e sai do meu tempo, em revisão e retrabalho.
Do outro lado tem o Theo. Ele trocou o slogan do T3 Code:
New branding for T3 Code: "We burned the tokens so you don't have to"
— Theo - t3.gg (@theo) October 3, 2026
We've probably burned $10m+ in tokens collectively just contributing to T3 Code
Ele não pagou dez milhões de dólares pra Anthropic. Esse número é o valor dos tokens pelo preço de tabela, somando o que todo mundo que contribui com o projeto gastou, e é estimativa dele (“probably”). O dinheiro que de fato saiu do bolso é outro. O Theo vive em assinatura. Ele conta que uma assinatura de US$ 200 do Claude Code rende uns US$ 9 mil de uso do Opus por mês, se você fizer a conta pelo preço da API. Diz que tem “6+ accounts”, que o plano Max é “an absolute steal” e que o preço da API é “insane”. Pra mim a divisão é simples: API é pra integração, pra quando você vai vender um produto. Se o software é seu e só você vai usar, a assinatura resolve.
Nisso ele tem razão, e eu preciso ajustar o meu argumento. Assinatura é muito mais barata que token de tabela. Ele chama o Claude Code e o Codex de “subsidized”, embora ele mesmo ache que os labs ainda lucram com a maioria dessas assinaturas. Eu mesmo vinha comparando o frontier pelo preço por milhão de tokens, e essa conta está errada.
O subsídio só não resolve o meu problema. Pra usar US$ 9 mil por mês de Opus, primeiro você precisa pagar US$ 200 por mês. Pra queimar limite como o Theo queima, precisa de várias dessas. Ele comemorou ter esgotado 4 contas do Claude numa semana. Eu não sou rico pra ter quatro contas no plano top de nada. Eu tenho quatro contas de US$ 20 e estou pensando em cortar duas.
E eu ainda estou no lado bom dessa conta. Consigo pagar dois planos. Tem muita gente que não paga nem um. E mesmo com dois, tenta montar um negócio só com planos de US$ 20. O limite acaba no meio da semana, você espera resetar, troca de modelo, revisa mais. Dá pra aprender assim. Competir com quem tem seis contas no plano top já é outra história. E o empreendedor brasileiro ainda leva aperto do outro lado, porque o mercado de vender software também está encolhendo. Escrevi sobre isso em software pra uma pessoa só.
O preço por token caiu e o plano de cima é um ótimo negócio, mas o desconto só chega pra quem já pode pagar o plano caro, de preferência várias vezes. Volume continua sendo privilégio.
Escrever ficou barato, manter continua caro
Uma semana depois, o Theo levou bronca por dizer que provavelmente não vai manter a reescrita do TypeScript em Rust:
I really don't get why people are mad at me saying I am "probably not" going to maintain the ts-rust rewrite.
— Theo - t3.gg (@theo) October 9, 2026
I am being honest. I am trying to maintain it, but I also have to run 3 companies and manage a project with half a million users.
Would you prefer I lie?
Prefiro a honestidade dele, e ela mostra bem o limite do “pencils down”: o agente escreve um TypeScript inteiro em Rust, mas alguém precisa responder por ele daqui a um ano, e o salário dessa pessoa não sai do bolso da Anthropic.
O próprio Omarchy deixa essa divisão no papel. O DHH lançou um bug bounty de US$ 100 mil no HackerOne, e pelas regras do programa achado gerado por IA sem checagem manual e sem prova de conceito funcionando não ganha nada. Não vejo hipocrisia nisso, porque todo projeto que já se afogou em relatório de IA aprendeu a mesma coisa. O agente varre, o humano assina embaixo, e o dinheiro do bounty vai pra quem assina.
O Primeagen virou a casaca
O Primeagen passou anos como o cético de plantão da IA. Em setembro ele entrou no Omarchy Core pra liderar o QA com agentes, usando o Oligarchy, um harness que sobe o Omarchy em VMs e deixa agente digitar e clicar como gente.
Thrilled to announce that @ThePrimeagen has joined Omarchy Core to lead Agentic QA. His new Oligarchy harness will soon be vetting all our upcoming releases using @digitalocean droplets, which will host agents running on our @AIatMeta tokens. Full cricle!
— DHH (@dhh) September 26, 2026
Se até o Primeagen está botando agente pra testar a distro do DHH, acho que a confiança nesses modelos chegou num ponto que pouca gente esperava. Comigo foi parecido: continuei usando tudo que dava, esperando o modelo chegar num ponto em que eu pudesse confiar. Quando chegou, fui com o que cabe no meu cartão.
O DHH está certo sobre o ofício, e eu também larguei o lápis. Mas enquanto modelo de ponta e manutenção forem cobrados em dólar, largar o lápis do jeito que ele largou vai continuar sendo coisa de quem pode pagar.
>_ Comentários
Carregando comentários...